19 de julho de 2012

Cousteau - Cousteau [1999]



Não havia blogs de música em 99. Quer dizer, no mundo, devia haver sim. Uns dois. Mas o que pegava mesmo era uns sites brasileiros em HTML vagabundo de link azul, hospedados numas Geocities da vida, que, mesmo assim, conseguiam nos deslumbrar diante do admirável mundo novo da acessibilidade à informação privilegiada.

No meio deles, maravilhas como o Indie Place e o Imaginary Friends já sussurravam uns nomes de bandas que, de outro modo, você teria tanta chance de conhecê-las quanto de ganhar do Deep Blue no xadrez. Sem precisar ir aos Correios, a gente ouvia falar que o Postal Blue estava se dando bem na gringa e que havia um site novo na praça, um tal de Trabalho Sujo. Naquele inverno um sujeito havia recém chegado da Escócia e opinou: a única coisa boa que tinha surgido de bom por lá naquele semestre era um tal de Cousteau. Beleza, bora ligar o Napster e deixar o computador ligado durante a madrugada, pra na outra manhã, com sorte, ter um arquivo mp3 inteiro pra ouvir. Rolou, e era The Last Good Day of the Year. Fodeu.

O Cousteau é uma banda fudida com um vocalista que canta que nem o Scott Walker: sonzeira romântica, dramática, intensa e meio canastrona. Se um décimo das bandas bregas que rolam por aí fossem assim, eu frequentaria mais jantares dançantes, certeza.

Cousteau - Cousteau 

16 de fevereiro de 2012

Sunny Day Real Estate - LP2 [1995] e The Rising Tide [2000]






É verdade, amiguinhos: já houve uma época em que a palavra emo não era necessariamente depreciativa. Choro e desespero eram commodities baratas, enquanto os dias de sol sofriam forte valorização imobiliária. Nessas coordenadas do espaço-tempo, a Imobiliária Dia Ensolarado era praticamente cultuada por uma clientela que gostava de barulheira, mas também dum melodraminha (me included).


Acho engraçado que no documentário do Foo Fighters (grupo que chegou a compartilhar dois integrantes com o Sunny Day) a banda seja retratada como algo menor, sem muita relevância: "um sonho de adolescência sem futuro", segundo o  baixista Nate Mendel. Talvez a treta do Dave Grohl com o William Goldsmith tenha mesmo algo a ver com isso (o Dave jogou fora e refez ele mesmo as faixas que o baterista  havia gravado para o álbum The Color and the Shape, chutando-o da banda logo depois), embora seja verdade que, enquanto empresa, o Sunny Day não mandava tão bem assim. Eram emos até nisso, e durante o tempo em que a raiz punk/hardcore não era ainda um elo perdido, plantavam e regavam conflitos ideológicos no pátio das gravadoras. Nessa onda, rejeitaram a oferta de uma major e optaram por um selo menor, que faliu pouco tempo depois de lançarem o The Rising Tide.

A galera mais xiita, que só ouve a fase SubPop deles, não gosta desse disco órfão. Diz que está prog e megaproduzido, e que gostavam mais do Jeremy Enigk quando não entendiam o que ele dizia. Era mais "misterioso". A real, jogada pelo próprio vocalista numa entrevista, é que quando ele chegou ao estúdio pra gravar o LP2, as letras nem estavam prontas ainda - aí ele improvisou alguns murmúrios na hora. Do it yourself, and quickly!


LP2
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The Rising Tide
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7 de outubro de 2011

Dan Black - Un [2009]



O Dan Black pode ter aquele jeitão ploc-ploc pão-com-ovo dele, mas que o rapaz sabe fazer música *pop*, ah sabe. Tá, eu já disse isso, tou ligado. Em todo caso, fazer música pop perfeita não basta para garantir o sucesso de alguém; nem assinar com uma major, nem chamar o Kid Cudi pra fazer participações, nem ser indicado num VMA qualquer. É, a vida é dura... he was dressed for success, but success never came. Uma pena, mas talvez o mainstream não seja pra você, amigo. Pense bem, o Passion Pit, que chegou a fazer um remix bizarrão de uma música sua, se deu um pouco melhor. O que isso quer dizer?


Bom, sou teu fã mesmo assim.


Un
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26 de setembro de 2011

Tristeza - Insound Tour Support Series vol.1 [1999] e Dream Signals in Full Circles [2000]





Como eu ia dizendo, o sol da Califórnia pode fazer mais do que deixar a pele do Ken cor de laranja. De vez em quando saem de lá uns branquelos barbudosdesses sujeitos talentosos com bom gosto pra música, tipo o Jimmy LaValle. Yeap, o front man do Album Leaf (que já existia na época como projeto paralelo) tocava guitarra no Tristeza.


Conheci a banda no site da Insound, que já me ajudou muito nessa vida. Não só a mim, mas às bandas também, porque periodicamente lançava EP's promocionais, com faixas inéditas, para bancar turnês pra rapêize. E foi o Tristeza quem estreou a série, que dali em diante apoiou artistas como Bright Eyes, Ida, Camera Obscura, Versus e The Rapture.


Sobre o som, uma descrição fast-food poderia dizer assim: teclados atmosféricos sob loops hipnóticos, quebrados no meio, com dedilhados que te enganam. O povo por aí costuma dizer que é post-rock, basicamente por se tratar de uma banda instrumental, mas não vem ao caso cavocar muito na meta-coisa da parada: longwaves não são pré-requisitos pro rótulo. Ou seja, em nenhum momento os caras abrem tudo, pisando em três pedais de distorção ao mesmo tempo - aliás, não pisam em nenhum, as guitarras são sempre bem limpinhas.


Durante a digestão, eles não apelam ao recurso da long wave - a tensão é construída na base de arranjos que se resolvem no contra-tempo. E isso deles tocarem super bem também não implica em punhetaria, pelo contrário: quem estiver esperando por algo assim vai acabar achando o troço todo meio monótono. De qualquer forma, o Dream Signals in Full Circles foi gravado e mixado em 10 dias. Aí é covardia, né?


Insound Tour Support Series [vol. 1]
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Dream Signals in Full Circles
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20 de julho de 2011

Ride - Nowhere [1990]



Clássico dos clássicos, o melhor disco do Ride de longe e, por consenso, a segunda maior referência shoegazer do mundo depois do Loveless, do My Bloody Valentine (ok, capítulo à parte). Foi o 74º lançamento da Creation Records, e como piada, ficou em 74º lugar do 90's Top 100 da Pitchfork.


Eu tinha apenas nove anos quando ele foi lançado; desnecessário dizer que só fui conhecer meia dúzia de anos mais tarde, nos anos cósmicos da chatolescência. Não sou tão indie assim. ¬¬ Mas enfim, emocionou, e na época lembro de escutar os mais velhos (respect!) discutindo, no corredorzinho agradável que um dia foi o James Bar, se o Tarantula (última bolacha inédita da banda) era ou não um álbum à altura do Ride. Não, não era.


Nowhere
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1 de maio de 2011

Warpaint - Exquisite Corpse [2009]




Não importa se elas são ou não queridinhas da América, o que importa é que o John Frusciante gravou esse EP com seus próprios gravadores de fita de rolo. E também é bacana saber que não é só a sua banda que se enrola a valer pra fazer um disquinho: as Warpaint começaram este em 2007, pararam, voltaram, mudaram de idéia, fizeram tudo de novo em 2008, meio que soltaram o EP por baixo dos panos, depois se enrolaram mais um tempo e finalmente lançaram por um selo, lá no final de 2009.


Ano passado saiu o primeiro full-length da banda, debut aguardado à base de ansiolíticos. As músicas estão bacanas, o álbum é bem bom e tal, maaas... não rola este clima. Por enquanto, este aqui continua sendo O disco delas.


Exquisite Corpse
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18 de fevereiro de 2011

Thieves Like Us - Play Music [2008] e Again and Again [2010]





Primeiro foi um romance noir clássico, do tipo crime/tragédia (1937). Depois, baseados nele, vieram dois filmes (1950 e 1974). O último inspirou uma música do New Order (1984), que por sua vez influenciou um grupo de synth pop lo fi (2002). O jogo de dominó no nome Thieves like Us é mó blasé. 


E os caras da banda vão atrás do glamour mesmo: fazem o tipinho cidadãos do mundo (o vocalista é de Nova Iorque, o camarada dos synths e o baterista são suecos; eles se conheceram em Berlin mas acham que são de Paris), curtem uma pesquisa em electronica vintage e todo aquele ar de metrópole retrofuturista. O resultado podia ser uma parada assim, clubber dândi, mas para nossa alegria o som cede ao estigma e acaba sendo esquisitão e um tanto quanto tristonho.


Os vocais gravados em casa, em cima de mil layers de sintetizadores analógicos, imprimem a sinceridade dum pobre nerd; um pobre nerd baladeiro que pode gravar seu primeiro disco em diferentes lugares do planeta - o Play Music foi feito em seis cidades, sendo uma delas o Rio de Janeiro. Aliás, em 2009 eles tocaram em Porto Alegre e São Paulo, e só fiquei sabendo disso quase um ano depois... arranquei os cabelos, é claro.


Play Music
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Again and Again 
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11 de janeiro de 2011

Magnetic Morning - A.M. [2008]




Toda pessoa de bem tem um espaço reservado para o Swervedriver no coração. Fato.


Haha, parei, senão vão me agredir na rua - senso de humor é que nem mamilo esquerdo. O fato é que o Swervedriver é foda mesmo. Por conseguinte, o guitar hero do Adam Franklin é foda também. Ele compõe bem, vai.


Uns dez anos depois do último disco da banda, ele lançou esse álbum. Acho que a crítica especializada só prestou um pouco de atenção no projeto porque o baterista é o cara do Interpol (tido quase como um frontman), mas mesmo assim não rolou empolgar muita gente. Talvez porque tenha rolado uma reunion do Swervedriver naquele mesmo ano. Whatever. O que importa é que chamaram o cara do Album Leaf pra tocar teclado nas gravações, imagine só: fumaça shoegazer estratosférica e escura pra todo lado, muito amor.


O engraçado é um cara de Oxford e um de NYC decidirem gravar e lançar um disco justo em Athens. Por que será?


A.M.
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30 de dezembro de 2010

Cut Copy - In Ghost Colours [2008]




Daí tem o Cut Copy, claro. Nem tem muito o que falar, a não ser que este disco pode salvar vidas e que quem não ouviu deveria ouvir.

E deveríamos todos ser muito gratos à Austrália por ela ter esquecido aquela história de surf-music-óleo-da-meia-noite e ter começado a presentear o mundo com electro gifts de primeira, tipo o Van She, os Presets, o Pnau, o Empire of the Sun... e o Cut Copy.

O Zonoscope, terceiro disco deles, é pra sair no começo de fevereiro. An-si-e-da-de.


In Ghost Colours
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12 de novembro de 2010

The Rural Alberta Advantage - Hometowns [2008]




Tá, confesso: baixei esse disco porque a Pitchfork deu uma nota boa na época, prontofalei. A resenha saiu por ocasião do relançamento do álbum pela Saddle Creek, em meados de 2009, quando o power trio assinou contrato e deixou para trás o status de melhor banda independente do Canadá


As canções sobre os verões nas Rochosas e os invernos campestres ganharam meu coração; os arranjos diretos e a sinceridade das letras são fodas. E ah sim, o baterista é um surtado, isso contou também. 


Alguém disse que não passava de uma chupação de um tributo ao Neutral Milk Hotel, mas bah, esse alguém não se ligou na infiltração dum certo synth pop tosco ou no equilíbrio semi afinado que os backings da menina trazem pra parada. Por outro lado, também não se trata de um absurdo, em absoluto - a estética lo-fi, os violões distorcidos e os eventuais descontroles do vocalista não disfarçam que os RAA gostam mesmo da patota do Jeff Mangum, assimilando e retransparecendo todo aquele desespero melancólico que consegue deixar nossos dias subtropicais ainda mais animados.


Hometowns
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9 de novembro de 2010

Miike Snow - Miike Snow [2009]




Ano passado eu estava super viciado nesse disco. Desejei muito que ainda acontecem edições da Invasão Sueca em Curitiba, até mandei um tweet ao Papai Noel pedindo um show dos caras por aqui. E não é que, quase exatamente um ano depois, meu pedido foi atendido? Quer dizer, mais ou menos, porque a banda se apresentaria em São Paulo, Porto Alegre e Recife, mas né? Jogo bom assim mesmo.


E lá fomos eu e o Jaime para o Rio Grande do Sul. Olha, vou te dizer, foi foda! Entrou pro top 10 de shows da vida. Bem mais pesado que no disco, eletrônico pancada mesmo. Não acreditei na vibe do povo pulando e cantando os refrões - afinal, uma semana antes parecia que ninguém nunca tinha ouvido falar neles. E rolou mais uma coisa inesperada nesse sentido: foi para vê-los ao vivo que 60 fãs do Rio de Janeiro se reuniram, numa iniciativa inédita no Brasil, para bancar a gig do próprio bolso, conseguindo no fim levar 850 pessoas para o Circo Voador em plena segunda-feira (!!). Palmas pra rapaziada de lá, mandaram bem.


Mas então, baixa aí, ouve e vê se concorda com a gente: o clima é soturno, um pop hipnótico, bem construído. Nem vou comentar que esses camaradas já produziram coisas pra Madonna e pra Britney pra não criar resistência, haha, mas acredite, eles usam seus poderes para o bem. Talvez o electro-ska esquisito de Animal (primeira faixa e primeiro single do álbum) te deixe meio em dúvida na primeira audição (isso aconteceu comigo), mas é só seguir adiante pra perceber que o disco inteiro é phoda. Em pouco tempo as estrofes estarão ecoando pela sua cabeça e você mal se lembrará de ter estranhado um dia. Tá, acho que esse coelho bizarro com chifres (que aparece em todos os clipes deles) também pode ter alguma coisa a ver com isso.

1 de novembro de 2010

Coconut Records - Nighttiming [2007] e Davy [2009]





O Jason Schwartzman é do tipo come-quieto - ele sempre está por aí, mas a gente mal vê. Bem, ele também parece não fazer muita questão de ser visto. Tipo, ele é ator, sobrinho do Francis Ford Copolla e primo do Nicolas Cage, o irmão dele faz aqueles blockbusters milionários horríveis, mas ele mesmo quase só pega pontas. Várias delas, na real. Ele foi o Luís XVI no Maria Antonieta e o Ringo Starr em Walk HardDe vez em quando dá uma de protagonista, como no seriado Bored to Death e nos curtas Hotel Chevallier e The Darjeeling Limited (que, aliás, ele ajudou a escrever). E olha que o cara é bom, é engraçado.


O Coconut Records é a sua persona musical. Ele compõe as letras e as melodias, grava quase todos os instrumentos e arranjos. Lança os discos por um selo que ele mesmo criou, e divulga de mansinho, daquele jeitão Onde Está Wally. Quando fui ao cinema ver Cloverfield, durante a cena da festa, reconheci o riffzinho de West Coast: come-quieto. Ele também chama o povinho ator pra participar das gravações - a Kirsten Dunst, a Jennifer Furches e a Zooey Deschanel fizeram backing vocals numas músicas dele (come-quieto?). E falando na Zooey <3, só fui reparar que ele aparece no filme do Guia do Mochileiro das Galáxias lá pela terceira vez que vi - e são só alguns segundos. Come-quieto!


Quem me ensinou a prestar atenção tanto nele quanto nela foi a Alyssa Aquino, enquanto papeávamos sobre clássicos pessoais e bandas da vida. Confesso que a primeira vez que ouvi o Nighttiming achei o disco um pouco fácil demais, mas quando fui perceber, o bicho já era o mais ouvido do meu Last.fm. Tá certo que só abri minha conta em 2006, e que o scrobbler não pega fitas k7 ou as coisas que eu ouço no iPobre ou no som da sala, etc, etc, mas pô, bateu até as audições digitais de The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars!


Eita, me pegou desprevenido. Isn't that the way it goes?


O som é extremamente pop, sensível e engraçado ao mesmo tempo - e ainda é um mistério como foi possível misturar esses ingredientes sem dar em água com açúcar. O Nighttiming corrobora minha teoria de que corações quebrados geram os discos mais inspirados, e contém vários hits em potencial (nenhum chegou a ficar muito conhecido, naturalmente). Uns dois anos depois do lançamento, uma DJ aqui da micrópole descobriu a banda e começou a tocar uma dessas faixas na balada. Super funcionou na pista, e era ótimo poder contar com essas pequenas e agradáveis ilhas num mar de sucessos do novo-róque chinfrim. Claro, depois de um tempo essa faixa chegou até a enjoar um pouco, bateu cabelo demais. Mas ok, repetition kills you, e o ponto é provar que rolaria: he could if he would.


O segundo disco, Davy, é perfeito para embalar road-trips (não tenho como ouvir Microphone sem lembrar da cara de felicidade da Ms. Kummer com seus fones de ouvido no ônibus para Pucón). O álbum segue uma linha mais sutil, acústica, sem referências irônicas a episódios da vida noturna pós-break-up ou riffs roqueiros weezerianos. Talvez tenha a ver com as reciclagens que costumam acontecer depois de refletirmos sobre nossas próprias retrospectivas. O Jason com certeza andou fazendo isso, a julgar pelo clima autobiográfico de Drummer, canção cuja letra, após resumir os anos da vida dele em frases sucintas, culmina no refrão "...and I was the drummer in a band that you heard of". Ah é, faltou mencionar isso - ele também era baterista do Phantom Planet. Alô, O.C.!


Nighttiming
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Davy
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26 de outubro de 2010

Flotation Toy Warning - Bluffer's Guide to the Flight Deck [2004]




Jornadas intrépidas a terras distantes, um punhado de testemunhos fantásticos, viagens labirínticas pelo espaço e pelo tempo não seqüencial. Pisca, esfrega os olhos. Uns exploradores do pólo norte vagando num balão de ar, sobre planícies nunca dante vistas, sem um mapa sequer e sem terem nem idéia de onde ou quando vão pousar. Os navios, as máquinas e os telescópios. A grandeza, a saudade, o extraordinário; a busca pelo objeto mítico. As lembranças seculares, os sonhos acordados. Algum arrependimento, a partida, o eterno retorno.


Pinéu, né? É por aí que esse disco vai, através dum pop de câmara lento, hipnagógico, com arranjos space/dream minimalistas que constroem uma estranha intensidade na sutileza. O clima nostálgico dos timbres persegue instrumentos aerofônicos que nem existem, e de repente você está surtando também. Cuidado.


Nem lembro bem como conheci, acho que o negócio só se materializou aqui, assim, do nada. O registro mais antigo que achei nas minhas coisas foi um e-mail de 2006, em que eu pus o nome do disco como assunto e escrevi só uma frase: "esses são os caras". De tempos em tempos volta para a playlist, não tem como.


Bluffer's Guide to the Flight Deck
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24 de outubro de 2010

Starflyer 59 - Silver [1993]




1996 ou 7, redondezas do CEFET. O Paul chega com um sorriso de orelha a orelha, segurando uma sacolinha no bolso do seu guarda-pó de Edificações. O povo olha meio desconfiado: "ê, que alegria toda é essa? Que que 'cê tem aí?" - "Carta da namorada?" - "Proposta de emprego?" - "Um contrato do Neo com uma major?" - "Uma cartela de doces?". Ainda quieto, com aquele sorriso de quem viu dEUS e com um cuidado-quase-veneração, ele tira os fones de ouvido e mostra dois cds sem nome: um inteiro prateado e um inteiro dourado.


Tinham recém chegado ali na Temptation, ou na Hells Bells, ou na 801, sei lá, num daqueles lugares que em se mandava importar cds nos tempos pré-Napster. Depois de um tempo ele me arranjou uma cópia em fita cassete. E não é que era realmente o paraíso do fuzz e do big muff, dos vocalzinhos suaves e arrastados, da mais pura chapação celestial? Aquele ar dream pop shoegazer estratosférico simplíssimo podia fazer qualquer um ver a luz, mas admito que só fui perceber que o troço era religioso mesmo quando alguém disse "ei, isso aí é banda de crente"! Pô, não é que era mesmo? Mas, bizarramente, não fazia a menor diferença.


É que, na real, as letras são bem sutis e nem tocam muito no assunto. E os caras são carolas, mas são carolas com crasse. Ou seja, não é nem 500 Graus e nem white metal, mas a Cleycianne ainda acha que se ouvir e não gostar, é porque tá amarrado 3x.


Silver
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23 de outubro de 2010

Deerhunter - Halcyon Digest [2010]




Alguns discos que foram lançados este ano já se tornaram clássicos aqui na estratosfera, como o Halcyon Digest. Logo que o negócio vazou, Marcell já levantou a bandeira: "clássico instantâneo, amor à primeira audição". Mas ele também estava certo dizendo que postar "o que realmente se tenha entendido" é mais digno do que se estropiar na corrida armamentista dos links vazados. Assim, quase dois meses de amor auditivo ininterrupto, está certo: não foi fogo de palha.


O álbum é comoventemente simples e bem estruturado. As canções parecem umas elipses em concordância traçadas a grafite, rola um senso de conjunto. Os timbres noventistas trazem uma sensação familiar no meio da confusão fractal, e as melodias chegam a ficar na cabeça por dias, tipo um brainworm do bem. Pareceu foda ser um cara esquisitão de dois metros de altura e cinqüenta quilos, que costumava se inspirar num final de semana lisérgico qualquer pra gravar um EP malucão de meia hora, e de repente lançar uma bolacha histórica dessas.


Os comparsas Mari Zarpellon e André Ramiro também assinaram embaixo. 


Alcyon Digest
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22 de outubro de 2010

Akron/Family - Akron/Family [2005] + Love is Simple [2007]





Quem me apresentou o Akron/Family foram duas pessoas incríveis, o Jonathan Breger e a Jamie Menzel, seres que trombei durante uma mochilada em Montevidéu em 2006 e depois nunca mais vi, mas que deixaram várias boas lembranças. A Jamie era uma querida e tinha uma banda chamada World History. Já ele era o tipo de cara que mora num ônibus escolar com uma fogueira dentro, trabalha seis meses por ano numa fazenda de orgânicos e passa os outros seis hitchhiking por aí - bem a cara dele esse som, note-se. Na última vez em que nos comunicamos ele estava no Camboja, obviamente sem saber falar uma palavra de Khmer. 


Foi com essa cambada que aprendi a gostar do novo folk psicodélico, da New Weird America, de Animal Collective e de Riot Folk. Pasmem: eles não tomavam chá de cogumelo nem nada. Já os caras do Akron/Family... bom, só sei que eles eram alarmantemente barbudos, se refugiavam no mato, nadavam pelados no rio e adoravam um tal Ak-Ak. Estranho algo tão campestre se dar bem no Brooklyn. Culpa do Michael Gira.


Michael Gira é o fundador da Young God Records, selo de Nova Iorque especializado em figuras outsiders e off-hypes, que acabou lançando o primeiro álbum do Akron/Family, em 2005. Esse disco já nasceu clássico, convenhamos. Todos na banda tocam de tudo, rola uma sinergia absurda entre os músicos, uma coisa ritual, envolvente mesmo. O Gira se impressionou tanto com o talento desses ursos das montanhas que até os convidou a ser a banda de apoio do seu projeto Angels of Light, que acabou lançando um ótimo split com o A/F no mesmo ano.


O outro disco deste post foi lançado dois anos depois, em 2007. Mesmo sem aquela crueza singela e sincera do debut, Love is Simple pode ser considerado uma obra-prima. A loucuragem mezzo folk/mezzo prog, mezzo étnica/mezzo rocker continuou bem amarrada, numa viagem bem produzida e de arestas simetricamente aparadas  - o que incomodou alguns fãs mais xiitas, é verdade. Mas a pena mesmo é que logo após o lançamento desse puta álbum, e um pouco antes do início da turnê americana, um dos membros, Ryan Vanderhoof, saiu da banda para viver em um retiro budista Dharma. A célula foi quebrada, a coesão sonora-espiritual se diluiu e o último cd, Set'em Wild, Set'em Free, lançado em 2009, acabou ficando uma passação esquisita, sem Ak-Ak pra iluminar e guiar essas mentes tão férteis.


Akron/Family
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Love is Simple
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20 de outubro de 2010

Afghan Whigs - Gentlemen [1993]



Falar bagaceirice em música não é um troço muito fácil - se você tem estômago, claro. Talvez o problema esteja nos movimentos peristálticos das whore singers, nos axégodes e suas celulites, ou nos GTA pimps smacking their bitches up. Vai saber, pra gente normal o tema é delicado mesmo.


Hoje você pode tocar no assunto com sarcasminho de buatchy, tipo o Natalie Portman's Shaved Head, mas falar seriamente de sacanagem sem provocar vergonha alheia - porque, afinal, sacanagem é coisa séria - em plenos anos 90 não era pra qualquer um.  Antes fosse nos 70, abençoada purpurina. Mas nem pansexualismo rolava na jogada, era um esquema de amor mesmo. O cara berra e sofre bagarai.


Falando em purpurina, desconfio que o Brian Molko (outro que inseminou o róque com baixaria love stories), fã declarado de Afghan Whigs e do Greg Dulli, tenha se inspirado na letra de What Jail is Like para batizar sua Scared of Girls.


Gentlemen
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Aden - Black Cow [1999]





Sonzinho de Washington DC, embalou algumas tardes da minha recém adquirida maioridade, uns 10 anos atrás. E eu não entendia por que a catrefa do grindcore e do doom metal me achava tralálá... o estranho é que os twees também achavam que tinha nota demais e tchu tchu tchu de menos nisso aí.

Essa banda deu um sumiço neste século - lançaram o último disco em 2002 e depois nunca mais. Sei que o guitarrista e banjista (que é um octopus, por sinal) continuou tocando com um povo da New Weird America, mas parece que é só.

Há pouco sugeri esse disco a um amigo, mas parece que não se encontra mais para baixar em lugar algum - e olha que ele é empenhado na função da busca. Bom, look no further:

Black Cow